terça-feira, 15 de maio de 2007

Os Princípios Básicos do Budismo

Buda Sakyamuni nunca se preocupou com debates de ordem metafísica. Ao invés disso, insistia na análise e observação dos fenômenos deste mundo e a apontar o caminho que levaria o ser humano a se libertar do sofrimento. E isto seria alcançado através de uma disciplina ética, de prática da meditação e da contemplação e do desenvolvimento de uma espiritualidade consciente e, ao mesmo tempo, genuína.

Podemos resumir os ensinamentos do Buda Sakyamuni em 3 princípios ou fundamentos básicos:

1) Princípio da Originação Interdependente

Este princípio diz que os fenômenos e o mundo se originam de várias causas e circunstâncias que se interrelacionam para construir uma aparência ou uma forma provisória. Podemos subdividir este princípio em dois planos:

a) temporal (Princípio da Impermanência);

b) espacial (Princípio da Insubstancialidade ou do Não-eu)

2) Princípio da Impermanência

Somos seres condicionados pelo tempo. Tudo está em contínuo processo de transformação. Nada seria estável, apesar de o ser humano procurar sempre um estado de estabilidade e comodidade. Tudo seria transitório e efêmero. Não há neste mundo nada que seja eterno ou imutável. Sempre queremos mudar os fenômenos em função de nossos interesses e desejos e isto, contraditoriamente, ou justamente por isso, acaba nos trazendo angústia e sofrimento.

3) Princípio da Insubstancialidade ou do Não-eu

Somos seres condicionados pelo espaço. Tudo que existe tem uma existência apenas provisória, por isso, nada há que possua uma natureza permanente, própria e imutável. Tudo é produto de vários fatores que dependem uns dos outros para manter uma forma minimamente transitória. Nada existe isoladamente no contexto em que ele se encontra, pois se o contexto muda ou se transforma, as coisas também mudam ou se transformam. Assim, não há como admitir que exista um “eu” isolado.

Não existe o Um sem o Todo, ao mesmo tempo, em que não há o Todo sem o Um. Estamos condicionados pelas redes e relacionamentos que nos ligam ao contexto. Por isso, não somos definidos pelo que nós somos em si como uma personalidade individual. Nosso corpo físico é um conjunto de cinco agregados (skandas), que são impermanentes e insubstanciais. As transformações que ocorrem no nosso corpo fazem-no desenvolver-se e tudo que a nossa mente experimenta também provoca mundanças nela mesma. Tudo muda o tempo todo, o que faz com que nada encontremos dentro de nós que possa ter uma natureza constante e imutável. Porém, a ignorância e as paixões dos seres humanos levam-no a alimentar a ilusão de que as coisas não se transformam e que possuem uma essência perene. Daí surge o apego às coisas ao projetarmos desejos de estabilidade e permanência em algo que é, por essência, efêmero e relativo. Surge aí o sofrimento.

A partir daí poderíamos entrar no conteúdo das Quatro Nobres Verdades, que foi o Primeiro Discurso do Buda fazendo girar pela primeira vez a Roda do Dharma.

1) 1a. Nobre Verdade (dukkha)

Nascimento, velhice, doença, morte, separação de um ser amado, encontro e convívio com um ser indesejado, frustração por um desejo não realizado e o desconforto causado pela exacerbação cinco agregados. Todas são situações que provocam sofrimento.

2) 2a. Nobre Verdade (samudaya)

A origem desta insatisfação incômoda, que foi traduzida no português como sofrimento, não vem de fora. Vem do nosso próprio apego à expectativa de querer que as coisas sejam ou aconteçam como nós desejamos. E, quando nosso desejo não é satisfeito, ficamos irados porque a realidade foi contra a nossa vontade. Mas, tudo poderia ser diferente se não fossemos tão ignorantes quanto à realidade das coisas. Tudo que agimos, falamos ou pensamos é movido por esse desejo e, quando esta ação não encontra satisfação, acabamos criando sofrimento para si e para os outros, entrando num ciclo vicioso que nos aprisiona: DESEJO que gera a AÇÃO (KARMA) que gera o SOFRIMENTO.

3) 3a. Nobre Verdade (nirodha)

Buda vai nos mostrar que existe, sim, um caminho para se libertar do sofrimento, que é despertar ou encarar a sua realidade do buscando extinguir o apego aos nossos desejos egocêntricos, ou pelo menos, lidando melhor com as nossas paixões mundanas. Isto seria a própria Iluminação, ou chegar ao Nirvana, objetivo maior de todo budista.

4) 4a. Nobre Verdade (magga)

Mas, como chegar ao Nirvana se as paixões ou desejos mundanos e egocêntricos são algo que nos acompanham e nos acompanhará desde todo sempre. Seria através do Caminho do Meio, sugerido pelo Buda Sakyamuni que nada mais do que equilíbrio tênue entre os dois extremos do ascetismo e da luxúria, da abstenção e da entrega total aos prazeres. Passamos a ser responsáveis pelos nossos próprios atos, somos senhores do nosso próprio destino. A Lei da Causa e Efeito, ou a Lei do Karma, é implacável. Somos o produto do que fizemos no passado e seremos aquilo que viermos a fazer no aqui e agora.

Basta seguir os Oito Preceitos de comportamento corretos que regem a conduta ética, a disciplina mental e a sabedoria budistas, a saber:

Pensamento, Palavra e Ação Corretos

Baseados no Meio de Vida Correto

Que vem do Esforço, Concentração e Plena Atenção Corretos

Alicerçados firmemente no Visão Correta

Quando dizemos Visão Correta, isto significa Sabedoria, que sempre vem acompanhada da Compaixão. Mas, estes dois atributos não podem ser encontrados em nós, seres humanos comuns cheios de ignorância. Se tivéssemos sabedoria, não estávamos neste mundo buscando a Luz.

Mas, podemos sentir esta Sabedoria, que vem da ação da Compaixão que é a própria Luz. Esta Luz, para nós da Terra Pura, se manifesta através do Nome do Buda Amida, o Namu Amida Butsu, que chega até o nosso coração para nos dizer: “Não tenha medo! Eu estou aqui e te acompanharei nesta jornada até o despertar.”

No momento em que ouvimos este chamado do Buda Amida, não há mais escuridão, e sim, um raio de luz que nos guia em sua direção. Basta seguir em frente! Esta é Mente Confiante que nos diz o Mestre Shinran, o fundador da Verdadeira Escola da Terra Pura.

Referência bibliográfica:

Gonçalves, Ricardo Mário (org.), “Textos budistas e zen-budistas”, Editora Cultrix.

Um comentário:

Roberto Meira Junior disse...

Marco, eu não havia tido oportunidade de ler este texto altamente esclarecedor e objetivo dos princípios budistas.
Excelente material de referência.