quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

HOONKÔ 2011

Tudo é graças ao Buda Amida

Às vezes, chegamos a nos perguntar se poderemos ir para a Terra Pura, quando morrermos, apesar de estarmos recitando o Nembutsu. Creio que essa seja uma dúvida frequente e comum entre nós.

Isso nos remete a uma passagem do Tannishô em que Yuien-bo, discípulo de Shinran Shonin, confessa sua dúvida em relação ao Poder do Buda Amida. O trecho diz o seguinte: “Mesmo quando pronuncio o Nembutsu, raramente tenho a mente inundada por êxtase e alegria. Nem tenho a mente que aspira nascer o mais breve possível na Terra Pura. Por que isso acontece?”

Em resposta a essa dúvida de Yuien-bo, Shinran Shonin conforta-o de maneira muito carinhosa, dizendo que ele próprio, Shinran Shonin, também compartilha do mesmo sentimento. E explica que, o fato de não sentirmos qualquer desejo pela Terra Pura mostra o quanto essas nossas paixões maléficas são poderosas e intensas.

Por fim, Mestre Shinran tranquiliza-o dizendo que o Buda Amida seria “especialmente compassivo com aqueles que não estão ansiosos (ou tem dúvidas)” quanto a querer (ou poder) nascer na Terra Pura.

Na verdade, Shinran Shonin teria aliviado um pouco a dose da sua instrução a Yuien-bo, primeiro, porque já o conhecia muito bem e, segundo, porque a maneira de Shinran Shonin orientar os seus discípulos foi sempre muito compassiva.

Mas, vamos analisar de forma um pouco mais aprofundada essa indagação de não nos sentirmos merecedores do Nascimento na Terra Pura.

“Sinto-me capaz de recitar o Nembutsu, mas será que o Buda Amida vai poder me levar para a Terra Pura quando eu morrer?”

Há um professor japonês de Budismo da Terra Pura chamado Jitsuen Kakehashi que explica que este tipo de indagação só surge porque está equivocada a maneira como compreendemos o Nembutsu, o Voto Original do Buda Amida e a Terra Pura.

Nós achamos que o nosso papel é recitar o Nembutsu, enquanto que o papel do Buda Amida é nos levar para a Terra Pura. Mas, por princípio, o Poder do Voto Original do Buda Amida é a força ou a energia que transforma seres como nós, repletos de paixões mundanas, que não possuem, por natureza, a intenção de recitar o Nembutsu, nem querer ir nascer na Terra Pura, em seres capazes de fazê-lo. Ocorre uma transformação surpreendente! Talvez um “milagre”! Algo “inconcebível”! É a força do Poder Compassivo do Voto Original do Buda Amida que nos educa a voltarmos nossos olhos para a Verdade. Uma revolução (“tenkan”, em japonês) de 180º em direção à Terra Pura. A força que fez com que eu recitasse o Nembutsu é a mesma que fará com que eu nasça na Terra Pura.

A isso Shinran Shonin vai chamar de “fushigui”, que quer dizer que algo inconcebível, inexplicável, inestimável pela razão humana acontece quando somos salvos por este Outro Poder, por este Poder Compassivo do Voto Original do Buda Amida, “Hongariki”.

Por isso, seria um erro tentar entender com a nossa razão, com o nosso raciocínio, o que acontece quando somos abraçados por essa Grande Compaixão do Buda Amida.

Para Shinran Shonin, “jiriki” é “shigui”, ou seja, tudo que é possível de ser pensado ou calculado pelo ser humano. E, “Tariki” é “Fushigui”, o contrário de “shigui”, ou seja, aquilo que está muito, mas muito, além da capacidade do ser humano, ou da pretensão dele de achar que tem condições de recitar o Nembutsu, acreditar no Voto Original e conseguir ir Nascer na Terra Pura apenas dependendo das suas forças.

Ao invés de querer ouvir o ensinamento do Buda, estamos mais preocupados com o que os outros estão pensando ou falando sobre nós, se os outros irão nos elogiar ou falar mal.

Se estou hoje, aqui, tendo a oportunidade de ouvir o Dharma, neste Hoonkô, tendo a graça de poder recitar Namu-Amida-Butsu, é porque algo inexplicável, inconcebível, quase milagroso, aconteceu. Ocorreu a transmissão do mérito (“ekô”) do Buda Amida a nós, seres cheios de paixões.

Por isso, para Shinran Shonin, o fato de eu estar agora ouvindo o ensinamento do Buda, recitando o Nembutsu e, um dia, quando chegar a minha hora, poder ir nascer na Terra Pura, tudo isso é obra do Buda Amida.

Não é porque sou um ser inteligente que estou aqui participando deste Hoonkô. O mérito não é meu. Por mim, eu estaria talvez numa piscina ou numa praia desfrutando de um momento de prazer e conforto, ou ainda, numa sala refrigerada assistindo a um DVD no meu home theater. Se estamos aqui hoje é porque alguma coisa nos conduziu até aqui. Foi a força do desejo do Buda Amida para que eu desperte para a Verdade, para que eu preste atenção ao ensinamento que fez com eu viesse até aqui hoje. Quando eu perceber isso, é que eu terei realmente encontrado com o Buda. Aí sim teria acontecido um grande “milagre”, o “inconcebível”. Essa é a diferença entre o “jiriki” e o “Tariki”. São duas forças que estão em níveis completamente distintos. Não há como comparar. Por isso, é tão gratificante!

Namu Amida Butsu.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

ORAÇÃO BUDISTA DAS REFEIÇÕES

- Antes da refeição:
Tenho a felicidade de receber agora esta refeição maravilhosa, graças à proteção do Senhor Buda e aos benefícios de todos os seres vivos. Com reverência, buscarei saber a origem da refeição mas não avaliarei o seu sabor. Com reverência, meditarei sobre os méritos contidos nesta refeição sem me preocupar com a sua quantidade.


- Depois da refeição:
Agora termino esta refeição maravilhosa com o espírito pleno e o corpo fortificado. Com corpo e espírito pleno de energia, que eu dedique o meu karma para retribuir aos benefícios recebidos de todos os seres.
Desfazendo equívocos

Reverenda Yvonette Silva Gonçalves

Se você quer milagres, não procure o Budismo. O supremo milagre para o Budismo é você lavar seu prato depois de comer.

Se você quer curar seu corpo físico, não procure o Budismo. O Budismo só cura os males de sua mente: ignorância, cólera e desejos desenfreados.

Se você quiser arranjar emprego ou melhorar sua situação financeira, não procure o Budismo. Você se decepcionará, pois ele vai falar sobre desapego em relação aos bens materiais. Não confunda, porém, desapego com renúncia.

Se você quer poderes sobrenaturais, não procure o Budismo. Para o Budismo, o maior poder sobrenatural é o triunfo sobre o egoísmo.

Se você triunfar sobre seus inimigos, não procure o Budismo. Para o Budismo, o único triunfo que conta é o do homem sobre si mesmo.

Se você quer a vida eterna em um paraíso de delícias, não procure o Budismo, pois ele matará seu ego aqui e agora.

Se você quer massagear seu ego com poder, fama, elogios e outras vantagens, não procure o Budismo. A casa de Buda não é a casa da inflação dos egos.

Se você quer a proteção divina, não procure o Budismo. Ele lhe ensinará que você só pode contar consigo mesmo.

Se você quer um caminho para Deus, não procure o Budismo. Ele o lançará no vazio.

Se você quer alguém que perdoe suas falhas, deixando-o livre para errar de novo, não procure o Budismo, pois ele lhe ensinará a implacável Lei de Causa e Efeito e a necessidade de uma autocrítica consciente e profunda.

Se você quer respostas cômodas e fáceis para suas indagações existenciais, não procure o Budismo. Ele aumentará suas dúvidas.

Se você quer uma crença cega, não procure o Budismo. Ele o ensinará a pensar com sua própria cabeça.

Se você é dos que acham que a verdade está nas escrituras, não procure o Budismo. Ele lhe dirá que o papel é muito útil para limpar o lixo acumulado no intelecto.

Se você quer saber a verdade sobre os discos voadores ou sobre a civilização de Atlântida, não procure o Budismo. Ele só revelará a verdade sobre você mesmo.

Se você quer se comunicar com espíritos, não procure o Budismo. Ele só pode ensinar você a se comunicar com seu verdadeiro eu.

Se você quer conhecer suas encarnações passadas, não procure o Budismo. Ele só pode lhe mostrar sua miséria presente.

sábado, 11 de outubro de 2008

Cidadania e Budismo

Hoje, é dia de eleição.
Segundo a Constituição Federal, só é cidadão quem tem o direito ao voto, excluindo-se os estrangeiros, as crianças e os idosos; ou seja, só é cidadão quem é eleitor.
No sentido grego da palavra, “cidadania” quer dizer “direito da pessoa em participar das decisões nos destinos da cidade”.
Ultimamente, confunde-se muito os direitos e deveres do cidadão com os direitos de consumidor, como se o dinheiro conseguisse comprar a nossa responsabilidade perante a sociedade em que vivemos.
Às vezes, achamos que somos mais cidadãos quando fazemos doações em dinheiro ou em mantimentos para entidades assistenciais por intermédio de uma ligação telefônica motivado por um programa na televisão e esquecemos que o simples ato de jogar o lixo pela janela do carro ou do ônibus tem tudo a ver com cidadania.
Achamos que, por pagar impostos, temos o direito de colocar o filho na escola pública depositando toda a responsabilidade da educação deste filho na mãos da escola, sem se preocupar em participar na melhoria do nível do ensino que é dado nesta escola. Isto é um problema de governo, não meu!
Em outros países, parece haver uma consciência coletiva e um espírito comunitário muito mais forte que em nossa sociedade. Apesar de nós, brasileiros, acharmos que somos um povo muito solidário e companheiro. Um pouco individualista, às vezes. Afinal, quem nunca apelou para um “jeitinho”.
Entre os japoneses, existe o hábito muito frequente de se dar uns aos outros envelopes com alguma quantia em dinheiro sempre em ocasiões especiais, sejam auspiciosas sejam pesarosas, como, por exemplo, em casamentos ou em funerais. Isto vem de uma consciência comunitária muito enraizada de que tudo que acontece com o outro também diz respeito a mim, e vice-versa. Como uma corrente que se mantém fortalecida sempre que todos se unem para poder fazer com que cada elo se mantenha também forte.
No Budismo, existe a palavra “engui” que quer dizer “condições interdependentes”, ou seja, tudo que existe depende uns dos outros para poder existir. Ora, parece que o Budismo falava em ecologia muito antes dessa palavra virar moda.
Concluindo, se existe carma individual, que é nossa ação em gesto, palavra e pensamento, existe também carma coletivo. Por isso, não deveríamos ficar esperando tanto que os políticos resolvam os nosso problemas.
As decisões que os governantes tomam, deveriam apenas refletir o desejo coletivo de como nós, cidadãos, queremos que seja nossa cidade. Que todos nós possamos votar de maneira mais consciente!
O SIGNIFICADO DO OFÍCIO MEMORIAL DE 49º DIA

O ofício ou cerimônia memorial de 49º dia marca o 7º dia da 7ª semana depois do falecimento da pessoa de quem lembramos sua memória. Antigamente, havia o costume de se fazer uma cerimônia a cada 7 dias e, quando se chegava ao 7˚ dia da 7ª semana, se encerrava o período de luto.
Existem algumas crenças supersticiosas que dizem que, se o 49º dia cair no 3º mês depois que pessoa falece, isto traria má sorte, por isso, teria que se adiantar a cerimônia para o mês anterior. Porém, como na maioria das situações não temos condições de escolher a data em que nós, ou as pessoas próximas a nós, vamos morrer então, não há porque se preocupar com isso.
Mas, independente do que reza a tradição e os costumes, o que realmente importa é a intenção e o significado de realizarmos e participarmos do ofício memorial.
Para o Budismo, os que deixam este mundo vão nascer no mundo da Iluminação, ou Terra Pura (“jodo”, em japonês). Nascendo na Terra Pura, este ente querido torna-se um Buda, uma pessoa iluminada e, se tornando uma pessoa iluminada, ela se liberta da ilusão egocêntrica para poder agir, não mais na forma física, mas de uma forma ilimitada, para guiar e orientar os seres que ainda vivem neste mundo. Por isso, todos os que se foram, não são meros seres do passado, mas estão agora agindo em nosso favor para que alcancemos a Verdadeira Felicidade.
Esta Felicidade, que tanto almejamos, não significa a satisfação do nosso desejo egocêntrico, mas sim, o despertar de uma consciência do verdadeiro significado de termos nascido como seres humanos e o sentido de estarmos vivos agora, neste momento.
Além de poder agradecer a tudo que a pessoa fez por nós em vida, temos hoje, neste ofício memorial, a oportunidade de poder expressar nossa gratidão a ela por estar nos proporcionando a chance de dedicarmos alguns minutos da nossa vida tão atribulada para poder refletir sobre a nossa própria existência.
No Budismo, existe o ensinamento da “Impermanência” que fala que tudo neste mundo está em constante transformação. As árvores, os animais, a Natureza, enfim, tudo que está ao nosso redor. Até nós mesmos. No entanto, só nos damos conta de que esta “lei” existe quando perdemos algo que nos era caro ou querido. Aí sofremos, porque não conseguimos lidar com a mudança que nos foi imposta pela realidade. Mas, não há como ficar se lamentando porque esta lei vale para todos. Então, o que podemos fazer. Só nos resta adaptamos à mudança.
Uma hora temos de nos separar daquele ou daquela que amamos muito. E, quando esta hora chegar, que a encaremos como uma oportunidade para refletirmos sobre o quanto esta vida é preciosa. Para que, quando chegar a nossa hora de deixar este mundo, que nós possamos partir com a sensação do dever ou da missão cumprida e com o profundo sentimento de gratidão por termos feito parte deste algo tão grande e maravilhoso chamado “Vida”.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

A história de Churapantaka – O “insight” da vassoura

Entre os vários discípulos do Buda Sakyamuni, havia dois irmãos chamados Mahapantaka e Churapantaka.

O irmão mais velho, Mahapantaka, era dotado de grande inteligência e se destacava entre os mais brilhantes discípulos do Buda, enquanto que o mais novo, Churapantaka, era desdenhado por todos porque não conseguia lembrar nem mesmo o seu nome, tendo que carregar consigo um crachá para que os outros, e ele próprio, soubessem como se chamava.

Diz a lenda que em seu túmulo germinou uma planta, chamada “myoga” em japonês, que, ao se comer, provoca o efeito de nos esquecermos facilmente.

O próprio Churapantaka sofria muito com a sua falta de inteligência. Lamentava sempre: “Porque não nasci mais inteligente. Por ser tão tolo, por mais que eu me esforce, nunca vou alcançar a Iluminação.”

Certo dia, ao ver Churapantaka triste, Buda Sakyamuni entregou-lhe uma vassoura e disse-lhe:

Não se torture com coisas difíceis. Você tem que apenas varrer o chão com esta vassoura recollhendo a sujeira e limpando o .”

Churapantaka, que gostava de varrer, e aliás varria muito bem, não se cansou em varrer o chão todos os dias diligentemente. Mesmo que todos os outros caçoassem da sua tolice, ele continuava a varrer todos os dias, até mesmo a parte dos outros. E assim foi durante vários anos, décadas.

Até que um dia, teve um “insight”.

Por mais que ele varresse todos os dias a poeira do chão, sempre a sujeira acabava se acumulando novamente e em lugares que, às vezes, nem se dava conta. Assim também é a poeira do nosso coração. Varrer o chão todos os dias e não deixar que a sujeira se acumule no chão era o mesmo que, com sabedoria e inteligência, cuidar a todo instante para que não se acumule poeira em nosso coração.

Antes de nos lamentarmos por aquilo que não somos ou não temos, deveríamos começar por aquilo que temos condições de fazer, mesmo que pareça algo pequeno ou insignificante. A perseverança da continuidade tem uma força que não deixa nada a perder à habilidade nata.

Não importa se não conseguimos fazer nada de fantástico ou difícil, mas se houver algo que possamos fazer todos os dias e se existir uma única coisa que devamos fazer agora, então aí existirá uma possibilidade enorme de podermos realizar algo.

Churapantaka continuou a fazer algo durante muito tempo. Algo que, aos olhos dos outros, era uma coisa tão futil e insignificante que qualquer outra pessoa deixaria de fazer nas primeiras tentativas.

Mas, o que fez Churapantaka tornar-se um sábio não foi a sua habilidade, mas sim o seu esforço e perseverança em realizar a difícil tarefa de continuar uma prática e, assim, conseguir chegar mais perto da iluminação.

Mérito seja dado também ao Buda, que soube instruir e guiar Churapantaka com meios sábios e hábeis apenas entregando-lhe uma vassoura.

domingo, 1 de junho de 2008

O Olho do Furacão

Trecho do último capítulo do livro:

“O Pensamento do Extremo Oriente”, 1987, Ed. Pensamento

Murillo Nunes de Azevedo

Lembrando um ano de Nascimento na Terra Pura do Professor e Reverendo Murillo Nunes de Azevedo

“Qual o objetivo dos diversos caminhos [...]? Todos [...] levam o homem a uma experiência fundamental: a visão da coisa em si. […] Há, podem ficar certos, um modo de Ver as coisas como elas são que é completamente diferente que elas se apresentam. Ver o novo, o incontaminado, o puro, o cerne, a raiz das coisas e da vida. Aquele que teve, mesmo que seja por instante, esse relance, não perderá jamais o seu gosto. Muitos buscam essa realização, iluminação, Satori, ou o nome que quiserem dar como uma fuga. Um ponto final na vida que levam. A mecanização crescente dessa vida é muito forte para que possam resisti-la. Costumam, então, colocar o ideal num ponto muito distante e lamentam constantemente os seus erros, os seus pecados, como se diria no século passado. Revoltam-se contra o vazio do estar só. Preenchem esse vazio com o jogo, a bebida, o cinema, a TV. E, acima de tudo, com o sexo. Toda essa atmosfera que, para grande maioria, constitui a vida moderna, está mergulhada num vazio total e absoluto, na desesperança, na sujeira, na fumaça, nos morros roídos pela erosão. No meio disso, em pleno furacão, o homem poderá encontrar um centro de paz: o seu próprio olho. Não é preciso fugir pois as culminâncias dos Himalaias estão dentro de nós. Dentro de nós todos os deuses, todos os demônios, o inferno, o paraíso, e acima de tudo, Aquilo que é a Paz fundamental. Não pensem que é fácil alcançar o que existe desde todo o sempre. Que o caminho é suave. Milhões de anos de conhecimentos acumulados, e de fórmulas verbais gastas nos separam do que está, aqui e agora, dentro e diante de nós. Que culpa tem o Sol se os homens não querem abrir os olhos? Que culpa têm as estrelas se andamos com a cabeça baixa? Vamos, vamos, é o momento de mergulhar. […]

Poderemos levantar tranquilamente e mergulhar na vida que nos chama. Viver em pleno furacão mas sem fugir dele. As coisas que nos cercam, as pessoas e as situações se apresentam verdadeiramente como realmente o são. Com a pureza instantânea do que surge a todos os momentos.

o olho do furacão terá sido alcançado.”


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

A Caixa de Pandora

Na mitologia grega, existe uma história muito bonita chamada “A caixa de Pandora”.
Nesta história conta-se que, certa vez, havia um Deus todo poderoso chamado Zeus que resolveu enviar para o mundo dos seres humanos mortais uma mulher cujo nome era Pandora.
Quando, enfim, chegou a hora de Pandora descer à Terra, Zeus pegou uma caixa muito bonita, toda cheia de enfeites e esculturas, entregou a ela e disse:
“Pandora, esta caixa lhe dou como presente e quero que a leve consigo. Mas, lembre-se que, haja o que houver, nunca você deve abrí-la.”
Pandora, que era muito bonita e atraente, desce dos céus para vir a se tornar esposa de Epimeteus. Logo depois do casamento, a vida conjugal era de muita felicidade e o mundo inteiro estava repleto de alegria. Mas, isto durou apenas alguns dias e logo Pandora começou a se sentir entediada.
E aí, num momento de ausência do seu marido, Epimeteus, Pandora se sente atraída por aquela linda caixa que Zeus havia lhe dado de presente.
Porém, ela se lembra das palavras que Zeus havia lhe dito:
“Haja o que houver, nunca você deve abrir a sua tampa!”
E, quanto mais ela tentasse reprimir o desejo de abrir a caixa, mais tinha vontade de saber o que havia dentro dela.
Por mais que soubesse que não podia contrariar Zeus e tentasse firmemente conter a sua curiosidade, ela não conseguia resistir e acabou abrindo a caixa.
Eis, então, que de dentro dela saem coisas parecidas com bichinhos soltando um grunido. Estas coisas faziam com que os seres humanos viessem a sofrer e terem medo. Foi aí que conhecemos o que é a “dor”, o “medo”, o “desespero”, a “tristeza”, a “incerteza”, a “doença”, a “pobreza”, a “ira”, a “inveja”, o “ódio” e a “falsidade”.
Pandora fica assustada e corre para tentar fechar novamente a caixa, mas já era tarde. As coisas que sairam da caixa, logo invadiu o quarto todo e, saindo pela janela, espalhou-se por todo o mundo.
Assim, o ser humano, que até então não havia visto nada parecido, vê estas coisas invadirem o seu corpo e a sua alma até nas suas entranhas. O ser humano que não sabia o que era “desconfiança”, passou a duvidar dos outros. Aqueles que não sabiam o que era “inveja” e “ódio”, passaram a lutar e se violentar uns aos outros e nunca houve tanta infelicidade e desgraça no mundo.
Pandora fica triste e arrenpendida por ter causado tanto mal a todos.
Foi quando surge uma voz lá do fundinho da caixa que disse:
“Ei, não se esqueça de mim. Ainda resta eu que sou um aliado seu. Por mais que exista tanto mal, eu vou estar sempre presente. Não se entregue. Não se preocupe. Por favor, deixe-me sair da caixa.”
A voz era tão insistente que Pandora, mesmo hesitante e com medo, acaba abrindo a tampa. E, de dentro dela apareceu, agora, um bichinho bem pequeno, mas muito bonitinho que disse:
“Eu sou a ‘Esperança’. De agora em diante, estarei sempre perto de vocês, dando-lhe força e coragem. Por mais que o mal lhes cause sofrimento e dor, se se lembrarem de mim, vocês poderão resistir. Por isso, não há o que temer.”
A partir de então, a “Esperança” sempre acompanharia o ser humano, mesmo nos seus piores momentos, dando-lhe a força ncesssária para continuar resistindo.

Levados pelas frustrações e erros do passado, não conseguimos pensar no futuro de tamanha dúvida, incerteza e preocupação. Acabamos nos sentindo até pequenos diante do tamanho do desafio que se coloca na nossa frente.
Buda Sakyamuni disse uma vez que “a vida é sofrimento” e ele talvez quisesse dizer com isso que as incertezas, os infortúnios, as dores e os sofrimentos fazem parte da nossa vida e não há como fugir delas. No entanto, existe algo que nos faz resistir a tudo isso com paz e tranquilidade, nos dando conforto.
Buda nunca disse que faria desaperecer o sofrimento. Ele apenas disse que, mesmo que a dor e o sofrimento surja, ele estaria sempre junto de nós sofrendo conosco, sentindo a dor junto de nós para que um dia nós pudéssemos ter a força e a coragem para resistir e superar e vivermos felizes.
Buda nos ensina que, haja o que houver, devemos tentar viver esta vida da melhor maneira possível. Este é o sentimento de Compaixão do Buda.
Com esta Compaixão do Buda, não importa o que venha a acontecer, seja qual for a condição em que nos encontremos, não há por que se enganar, não há do que fugir. Sempre teremos força suficiente para vivermos plenamente esta Vida.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Ichigô Ichi-ê - Um momento, um encontro

Existe uma música do Lulu Santos que se chama “Como uma Onda”, que muitos aqui devem conhecer. Muitos atribuem a ela o rótulo de Zen Surfismo pela sua letra ter um conteúdo zen-budista.
Aqui vai um trecho desta música:

“Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa, tudo sempre passará
A vida vem em ondas como o mar
Num indo e vindo infinito
Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo
Não adianta fugir nem mentir
Pra si mesmo
Agora, há tanta vida lá fora
Aqui dentro, sempre
Como uma onda no mar
Como uma onda no mar
Como uma onda no mar...”

Na verdade, hoje queria falar sobre a impermanência.
No meu tempo de faculdade, que não faz tanto tempo assim, cheguei a praticar um pouco cerimônia do chá. E, existe uma expressão muito usada na cerimônia do chá que é “ichigô-ichiê”, que quer dizer, “cada instante, um encontro”.
O sentido dessa expressão é que, cada instante da nossa vida, cada ato que temos, é uma oportunidade única de desfrutar uma descoberta que jamais se repetirá na nossa vida.
Momentos como esses são muito raros. Mas, quando acontecem, elas produzem tal efeito que percebemos claramente que alguma transformação ocorreu em nós mesmos e no mundo ao nosso redor.
Na verdade, isso pode acontecer a qualquer instante, mas, devido ao nosso embotamento, criamos barreiras para que este milagre contínuo não se manifeste.
Este mundo é feito de muitas regras e convenções, das quais não podemos fugir. Porém, na cerimônia do chá, aprendemos que, na prática da repetição dessas regras e convenções, é que podemos transcendê-las. E, na hora em que as transcendemos, elas já não mais existem. Ou melhor, existem, mas estamos além delas.
Assim como no ritual da cerimônia do chá, cada instante que se vive é feito de muitos rituais que repetimos sem nos darmos conta. Mas, mesmo que o nosso cotidiano seja feito de várias ações repetitivas, elas não precisam ser necessariamente monótonas ou tediosas. Porque o mesmo ato que praticamos todos os dias, ele pode ser diferente a cada vez que se repete.
O momento da transcendência está quando nos percebemos agentes participativos de cada momento da nossa vida. É como se tudo ao nosso redor fizesse sentido. Tudo estaria no seu devido lugar. E nada foge à nossa percepção. Não precisamos estar num ambiente ideal para podermos nos sentir plenos. Tempo e espaço não são limites para a nossa percepção. Esteja onde estivermos, seja quando for, podemos ser livres. O que nos limita não são os outros nem o mundo exterior. Sem querer fazer trocadilhos, quem amarra os nós, somos nós mesmos. Depois não sabemos como desatá-los.
Nossos olhos podem enxergar muito mais do que simplesmente ver aquilo que queremos ver. Podemos escutar muito mais do que simplesmente ouvir somente aquilo que estamos acostumados a ouvir. Podemos sentir o aroma de muito mais coisas do que o nosso olfato está acostumado a cheirar. O nosso paladar pode ser muito mais aguçado do que o gosto das coisas que estamos acostumados a sentir. O nosso tato pode sentir muito mais sensações do que o toque das coisas que estamos acostumados a tocar. Cada momento pode ser um milagre, cada instante, uma descoberta. Basta abrir os canais que nos levarão a perceber um mundo muito mais maravilhoso do que aquele com o qual estamos habituados.
Buda nos mostrou um Caminho no qual podemos descobrir um mundo além deste em que agora vivemos. Neste mundo não haveria mais limitações de qualquer espécie. Estaríamos livres das amarras que nos prendem a este mundo de ilusões. Descobrimos que o mundo em que vivemos é apenas um grande sonho no qual pensamos estar despertos. Mas, somente quando acordamos é que percebemos o estado de sonolência em que estávamos imersos. E só aquele que já despertou, é que pode nos fazer despertar deste sonho.

terça-feira, 29 de maio de 2007

No Budismo Mahayana, desenvolveu-se o conceito dos Três Corpos do Buda, a saber:

1) Dharmakaya: que não tem início nem fim; não possui forma definida e sua manifestação seria o Buda Mahavairocana;

2) Sambhogakaya: que tem um início mas não um fim; seu corpo seria idealizado e suas dimensões seriam astronômicas; sua manifestação seria o Buda Amida, que pode ser chamado ainda de Amitabha ou Amitayus;

3) Nirmanakaya: que tem uma existência limitada no tempo com início e fim; seu corpo é limitado fisicamente e sua manifestação seria o Buda Sakyamuni.

O Dharmakaya é a Verdade Transcendental que está além do espaço e do tempo, que transcende até a conceitualização abstrata. É a sabedoria que está além dos fenômenos perceptivos e ilusórios. Ele pode ser percebido ou realizado através da Prajna, ou Pranna (Sabedoria).

O Sambhogakaya seria o resultado da realização dos votos e práticas meritórias. E, pode ser visualizado através do Samadhi (meditação ou contemplação).

E, por último, o Nirmanakaya seria o corpo transformado do Buda que manifesta de inumeráveis formas para se adaptar às diferentes necessidades dos seres vivos.

O que interessa saber para nós da Terra Pura é que o Buda Amida tem as 3 formas, mas se manifesta de maneira mais comum como Sambhogakaya.

Shinran diz nos “Hinos da Terra Pura” que: “Amida tornou-se um Buda há dez eras cósmicas (kalpas). Um halo de luz ilimitada emana do Seu Corpo do Dharma iluminando a escuridão do mundo.”

Um kalpa na forma de medida dos budistas antigos não teria uma quantidade de tempo definida, mas corresponderia aproximadamente o tempo que levaria um ser celestial, que desceria dos céus uma vez a cada cem anos com um pedaço de tecido delicado como seda, tocar a superfície de uma pedra de 160 km2, e conseguir fazer desaparecer toda a pedra. Para os hindus, essa quantidade de tempo seria mensurável e corresponde a 4 bilhões e 320 milhões de anos.

Isto tudo para nos mostrar que Buda Amida estaria muito além da capacidade de compreensão do ser humano.

O “Shoshinguê cantado nos rituais dos templos budistas da Escola da Terra Pura são hinos escritos pelo Mestre Shinran (1173-1262) onde sintetizou os ensinamentos da Terra Pura.

Nesta obra, ele seleciona sete monges eminentes louvando-os como mestres da tradição da Terra Pura. Os sete predecessores são:

1) Nagarjuna (cerca do séc. I ou II d.C., Índia);

2) Vasubandhu (séc. IV d.C., Índia)

3) T’an-luan (476-542, China)

4) Tao-ch’o (562-645, China)

5) Shan-tao (613-681, China)

6) Guenshin (942-1017, Japão)

7) Honen (1133-1212, Japão)

Dentre eles, podemos destacar principalmente Shan-tao e Honen. Este último foi o mestre de Shinran e o orientou pessoalmente.

Antes de Shan-tao, houve um monge que o orientou pessoalmente que foi Tao-ch’o que viveu uma época em que se acreditava ter-se entrado na Era do Mappo, ou da decadência do Dharma, no qual, passados mais de mil anos depois do falecimento do Buda Sakyamuni, não haveria mais pessoas capazes de se iluminar através de seu próprio esforço porque a influência do Buda teria se enfraquecido e a prática não poderia ser realizada de forma correta. Por isso, afirmava Tao-ch’o, que as condições propícias para alcançar a Iluminação encontravam-se adversas e que somente o Caminho da Terra Pura seria adequado para a época e as pessoas que vivem esta época.

Seu sucessor, Mestre Shan-tao, viveu na China, em Shi’an, na época, o pólo da Budismo na China no seu período mais próspero. Sua obra mais importante foi os “Comentários ao Sutra da Contemplação” onde defende a prática da recitação do Nome Sagrado do Buda Amida, o Namo Amida Butsu, como a prática mais adequada e acessível a nós.

Houve um debate de Shan-tao com outros teóricos do Budismo que criticavam a prática do Nembutsu como sendo uma forma inferior de salvação, pois no Sutra da Contemplação, ela apareceria como um consolo para aqueles que não conseguiam realizar todas as 13 formas de contemplar a Terra da Bem-aventurança. A recitação do Nome do Buda Amida seria, para os críticos da Escola da Terra Pura, um prática menor para aqueles que não conseguem realizar as práticas meditativas de contemplação da Terra Pura do Buda Amida.

No sutra, estaria escrito que para os que não conseguem se concentrar, existiria uma solução derradeira em que, mesmo aquele que viveu toda a sua vida sem nunca ter refletido sobre o seu karma, em meio ao sofrimento do leito de morte, se encontrasse o bom instrutor e recomendasse a ele a recitação do Nembutsu, e pensasse sinceramente no Buda, ele seria salvo.

Mas, se, por acaso, o moribundo não tivesse em condições nem mesmo de pensar no Buda, o que aconteceria com ele? Aí, restaria apenas a última alternativa que é recitando o Nome do Buda Amida, o Namu Amida Butsu. Isto faria com que todos os seus males fossem extintos e a pessoa poderia ir nascer na Terra Pura, onde alcançaria a Plena Iluminação.

Para teóricos contrários a Shan-tao, essa classe de seres humanos seria do nível mais baixo e somente são salvos porque a Compaixão do Buda seria ilimitada. Porém, o lugar que eles iriam nascer seria no limbo da Terra Pura, à parte da Verdadeira Terra do Buda. Seriam como as frutas e verduras em final de feira.

Shan-tao responde a eles dizendo que a intenção do Buda Sakyamuni, ao proferir o Sutra da Contemplação, foi de explicitar aos seres humanos comuns que eles poderiam ser salvos com a recitação do Nembutsu indo nascer no nível mais alto da Verdadeira Terra Pura. Isto porque, em outro sutra, o Sutra do Buda da Vida Infinita, ou Sutra Maior, o Buda Amida teria prometido que, se não salvasse todos os seres, ele próprio não teria se tornado um Buda. Então, ele teria garantido o meio de todos os seres indistintamente alcançaremm a salvação suprema, mesmo àqueles de capacidade inferior.

Os teóricos, então, vão replicar indagando que, se somente o Nembutsu seria necessário para se salvar, qual a necessidade do Buda ter proferido as 13 formas de meditação anteriores? Não teria sido um esforço inútil do Buda?

Shan-tao responde a esta indagação dizendo que o Buda, primeiro, vai propor aos seres humanos a forma mais convincente para que eles compreeendam seus verdadeiros limites. Para nos convencermo-nos de que somente o Nembutsu é a última e única forma de nos salvarmo-nos, é necessário que, pelo menos, tentemos nos esforçar para conseguir realizar práticas meditativas mais complexas. E, para que não haja ser vivo que não possa ser salvo, criou-se a prática do Nembutsu. Com isso, a salvação foi proporcionada igualmente a todos sem distinção respeitando as diferenças de capacidade e individualidade de cada ser.

A Compaixão é igual para todos. Não faz dsitinção de classe, nível ou capacidade. Mas, os seres humanos são diferentes.

Ao chegarmos na época de Honen, o mestre de Shinran, na Período Kamakura do Budismo Japonês, em meio a tantas práticas existentes, surgiu a necessidade de se compactar ou fundir as várias formas numa só prática. Isto ocorreu com o Zen-budismo japonês, que se concentrou na prática da meditação sentada, no Nitiren, que se particularizou recitando o Sutra de Lótus, e, também, na Terra Pura de Honen, que escolheu a prática da recitação do Nembutsu como forma de chegar a iluminação.

E, Shinran segue a linha escolhida por Honen e acrescenta que somente com a Mente Confiante no Buda Amida é que poderíamos ser salvos porque até mesmo a recitação do Nembutsu seria a manifestação da aceitação de que somente a Compaixão do Buda Amida pode nos salvar.

Referência bibliográfica

Matsuno, Cho-on, “Bukkyo to Jodo Shinshu” (Budismo e Shin-budismo), Hongwanji Shuppan-sha, 1992.