HOONKÔ 2011
Tudo é graças ao Buda Amida
Às vezes, chegamos a nos perguntar se poderemos ir para a Terra Pura, quando morrermos, apesar de estarmos recitando o Nembutsu. Creio que essa seja uma dúvida frequente e comum entre nós.
Isso nos remete a uma passagem do Tannishô em que Yuien-bo, discípulo de Shinran Shonin, confessa sua dúvida em relação ao Poder do Buda Amida. O trecho diz o seguinte: “Mesmo quando pronuncio o Nembutsu, raramente tenho a mente inundada por êxtase e alegria. Nem tenho a mente que aspira nascer o mais breve possível na Terra Pura. Por que isso acontece?”
Em resposta a essa dúvida de Yuien-bo, Shinran Shonin conforta-o de maneira muito carinhosa, dizendo que ele próprio, Shinran Shonin, também compartilha do mesmo sentimento. E explica que, o fato de não sentirmos qualquer desejo pela Terra Pura mostra o quanto essas nossas paixões maléficas são poderosas e intensas.
Por fim, Mestre Shinran tranquiliza-o dizendo que o Buda Amida seria “especialmente compassivo com aqueles que não estão ansiosos (ou tem dúvidas)” quanto a querer (ou poder) nascer na Terra Pura.
Na verdade, Shinran Shonin teria aliviado um pouco a dose da sua instrução a Yuien-bo, primeiro, porque já o conhecia muito bem e, segundo, porque a maneira de Shinran Shonin orientar os seus discípulos foi sempre muito compassiva.
Mas, vamos analisar de forma um pouco mais aprofundada essa indagação de não nos sentirmos merecedores do Nascimento na Terra Pura.
“Sinto-me capaz de recitar o Nembutsu, mas será que o Buda Amida vai poder me levar para a Terra Pura quando eu morrer?”
Há um professor japonês de Budismo da Terra Pura chamado Jitsuen Kakehashi que explica que este tipo de indagação só surge porque está equivocada a maneira como compreendemos o Nembutsu, o Voto Original do Buda Amida e a Terra Pura.
Nós achamos que o nosso papel é recitar o Nembutsu, enquanto que o papel do Buda Amida é nos levar para a Terra Pura. Mas, por princípio, o Poder do Voto Original do Buda Amida é a força ou a energia que transforma seres como nós, repletos de paixões mundanas, que não possuem, por natureza, a intenção de recitar o Nembutsu, nem querer ir nascer na Terra Pura, em seres capazes de fazê-lo. Ocorre uma transformação surpreendente! Talvez um “milagre”! Algo “inconcebível”! É a força do Poder Compassivo do Voto Original do Buda Amida que nos educa a voltarmos nossos olhos para a Verdade. Uma revolução (“tenkan”, em japonês) de 180º em direção à Terra Pura. A força que fez com que eu recitasse o Nembutsu é a mesma que fará com que eu nasça na Terra Pura.
A isso Shinran Shonin vai chamar de “fushigui”, que quer dizer que algo inconcebível, inexplicável, inestimável pela razão humana acontece quando somos salvos por este Outro Poder, por este Poder Compassivo do Voto Original do Buda Amida, “Hongariki”.
Por isso, seria um erro tentar entender com a nossa razão, com o nosso raciocínio, o que acontece quando somos abraçados por essa Grande Compaixão do Buda Amida.
Para Shinran Shonin, “jiriki” é “shigui”, ou seja, tudo que é possível de ser pensado ou calculado pelo ser humano. E, “Tariki” é “Fushigui”, o contrário de “shigui”, ou seja, aquilo que está muito, mas muito, além da capacidade do ser humano, ou da pretensão dele de achar que tem condições de recitar o Nembutsu, acreditar no Voto Original e conseguir ir Nascer na Terra Pura apenas dependendo das suas forças.
Ao invés de querer ouvir o ensinamento do Buda, estamos mais preocupados com o que os outros estão pensando ou falando sobre nós, se os outros irão nos elogiar ou falar mal.
Se estou hoje, aqui, tendo a oportunidade de ouvir o Dharma, neste Hoonkô, tendo a graça de poder recitar Namu-Amida-Butsu, é porque algo inexplicável, inconcebível, quase milagroso, aconteceu. Ocorreu a transmissão do mérito (“ekô”) do Buda Amida a nós, seres cheios de paixões.
Por isso, para Shinran Shonin, o fato de eu estar agora ouvindo o ensinamento do Buda, recitando o Nembutsu e, um dia, quando chegar a minha hora, poder ir nascer na Terra Pura, tudo isso é obra do Buda Amida.
Não é porque sou um ser inteligente que estou aqui participando deste Hoonkô. O mérito não é meu. Por mim, eu estaria talvez numa piscina ou numa praia desfrutando de um momento de prazer e conforto, ou ainda, numa sala refrigerada assistindo a um DVD no meu home theater. Se estamos aqui hoje é porque alguma coisa nos conduziu até aqui. Foi a força do desejo do Buda Amida para que eu desperte para a Verdade, para que eu preste atenção ao ensinamento que fez com eu viesse até aqui hoje. Quando eu perceber isso, é que eu terei realmente encontrado com o Buda. Aí sim teria acontecido um grande “milagre”, o “inconcebível”. Essa é a diferença entre o “jiriki” e o “Tariki”. São duas forças que estão em níveis completamente distintos. Não há como comparar. Por isso, é tão gratificante!
Namu Amida Butsu.

